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Livro-Bíblia-Leitura12Nós, seres humanos, adoramos dar nomes às coisas e às ideias. Atribuímos a esses nomes e ideias significados e mais significados, à medida que vamos identificando particularidades nos mesmos. Esta mania, ou necessidade, talvez se deva à busca incessante de significados adicionais para a nossa curta, e muitas vezes miserável, existência, ou talvez seja a simples impotência de expressar numa palavra ideias ou conceitos; seja qual for a razão, somos capazes de dar tantos nomes a uma coisa ou ideia, quantos os pormenores que pensamos terem alterado ligeiramente o seu significado inicial. A palavra “ateu” não foge a esse destino fecundo, essa espécie de fado multiplicado, ao ver-se transformada numa árvore cheia de ramificações e botões sempre a florir. Não que isso seja mau, pois não é, mas para mim é como se entrasse na Babel das definições, quando me proponho tecer um raciocínio onde a palavra entre.

Ora a palavra “ateu” é um adjetivo e também pode ser um substantivo, não vou entrar em detalhes sobre este assunto, pois um professor de português pode esclarecê-lo com competência, já eu… sabe Deus, ou Zeus!…

Quando é usada como substantivo, a palavra “ateu” adquire o significado de “que não crê na existência de deus”, deus é escrito em letras minúsculas no dicionário online, significando qualquer deus, seja o Deus dos cristãos, Shiva dos hindus, Alá dos muçulmanos ou qualquer outra divindade. Isto parece correto, simples e liso mas, ao mergulhar um pouco mais na palavra verifico que a ela estão colados uma série de novos conceitos, que lhe vão alterando o significado, nascendo uma nova palavra cada nova visão ou pequeno desvio do sinónimo que lhe foi atribuído inicialmente. Assim, “ateu” pode significar simplesmente “aquele que não crê na existência de divindades”, mas se for “ateu forte” já lhe é acrescentada uma dinâmica militante de negação da divindade, já o “ateu fraco” é uma espécie de agnóstico, para “ateu cético” estão aqueles que, não acreditando em divindades, não afirmam a sua inexistência, e a mais jovem flor da árvore “ateu” é “novo ateu” designação usada para os autores que promovem o ateísmo e têm uma posição critica em relação às religiões ou qualquer tipo de crenças.

Quando a usamos como adjetivo, vamos lá a ver se não me engano, é quando dizemos algo como, “António, nem vou ligar, isso é o teu espírito ateu a falar”, assim como se diz, “João isso é o teu espírito corajoso a falar”. Então este “ateu” que qualifica a fala do António tem, nos dicionários que consultei, quase sempre o mesmo significado sendo que, ímpio é comum aos três – Dicionário da Língua Portuguesa, Porto Editora; Enciclopédia Larousse, Círculo de Leitores; e Dicionário online de Português. Tal significado deixou-me a matutar no assunto. Mas por que carga d’água será ímpio significado de “ateu”, se “ímpio” na sua função de qualidade adquire o sentido de cruel e desumano? Não que eu ponha em dúvida que um ateu possa ser cruel e desumano, mas também um cristão pode ser, ó se pode, basta darmos uma vista de olhos num livro de história, para ficarmos a par da desumanidade dos cristãos; enfim, qualquer pessoa de qualquer credo ou sem credo pode ser ímpia, afinal a crueldade é uma caraterística profundamente humana. Mas então, se qualquer pessoa pode ser cruel e desumana, logo ímpia, será possível dizer que cristãos e/ou muçulmanos são “ateus”? Não me parece, não que não haja cristãos ou muçulmanos impiedosos, que os há às carradas, mas porque isso implicaria uma enorme contradição com o significado da palavra “ateu” enquanto substantivo.

Perante este imbróglio atou-se-me a palavra “ateu” e fui aprofundar o assunto. Etimologicamente “ateu” deriva do grego átheos, adjetivo, em que a é uma partícula de negação significando sem, ausência de, e theós é a palavra deus, literalmente “ateu” é a mesma coisa que sem deus. Na língua inglesa, atheist é um adjetivo e tem o significado de alguém que não acredita em Deus. Na língua francesa a palavra atheé, tal como no português, é um adjetivo e também um substantivo, voltando a repetir-se o nó do significado em português, também atheé quando está a qualificar tem diversos significados incluindo impie, ou seja ímpio. Para os alemães, atheist é um substantivo e tem o significado de alguém que não acredita em Deus ou em seres superiores.

Obviamente que o significado das palavras se vai alterando ao longo dos tempos atendendo à aquisição de novos conhecimentos, cultura, desenvolvimento sociopolítico e à própria estrutura da língua. No caso em apreço percebe-se que, nos dois países cuja língua deriva da língua germânica, se usa a palavra “ateu” apenas de uma forma, ou como substantivo ou como adjetivo e em ambos os casos elas mantêm, mais ou menos, o sentido da palavra grega átheos; já nas duas línguas de origem latina, o adjetivo e o substantivo confundem-se, baralham-se, enrolam-se, imprimindo à palavra “ateu” um cunho negativo nos seus significados. Talvez seja por isso que Portugal está classificado no Relatório Global sobre Direitos, Estatuto Legal e Discriminação Contra Humanistas, Ateístas e Não Religiosos” como país de “discriminação sistémica”“. Afinal quem é que gosta de se relacionar com hereges, ímpios, ateus e outras pessoas más?

Um dicionário é um livro sério e ninguém põe em causa a veracidade do seu conteúdo, que o digam, entre outros, os senhores Mário David e Sousa Lara que, não fosse o facto da Santa Inquisição estar oficialmente extinta e já não fazer fogueiras, teriam queimado vivo o “ateu” José Saramago aquando da saída dos seus livros O Evangelho segundo Jesus Cristo e Caim. Naturalmente que aqueles senhores, tão católicos, estudaram muito bem a palavra “ateu” e foram aprovados, com distinção, em Anti-ateísmo, mas passaram em branco as páginas do dicionário onde se define liberdade de expressão, um descuido, uma falta de atenção, uma pequena negligência de nada que lhes custou a cadeira de Democracia. Vergonhosamente chumbaram. Mas estou a afastar-me do assunto…

Esta nossa particularidade, a de fazer brotar novas palavras a partir duma palavra inicial ou a dar-lhe outros sinónimos, está relacionada com a dinâmica social, novas ideias, novos conhecimentos, necessidades que se perdem, valores que se ganham. A palavra “ateu” que na antiga Grécia tinha o significado simples de sem deus, com a criação e expansão do cristianismo adquiriu conotações negativas e sinónimos hediondos, por conveniência do clero e, estranhamente chega aos dicionários de sinónimos do séc. XXI, talvez por conveniência da Igreja Católica, com os mesmos significados do séc. XV. E eu a pensar que vivia num país laico e moderno! Santa inocência…

Faço um apelo aos senhores dos acordos ortográficos: os senhores que sabem destas coisas, quando fizerem uma revisãozita aos dicionários de sinónimos, vejam lá se tratam da palavra “ateu”, se a Igreja Católica deixar claro…

Lia Liami

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Por hoje é tudo caros leitores, façam a vossa avaliação, protestem, blasfemem e sejam felizes. Até ao próximo artigo!

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