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Livro-Bíblia-Leitura17

Esta empreitada sem fim à vista, este monumental projeto sem nenhuma criatividade especial, pois as criações das criações e recriações são aquilo que fazemos, desde que descobrimos que os sons vocais se podem traduzir em caracteres, e já lá vão uns quatro mil anos, grosso modo, pois estas coisas não surgem já prontas, embaladas em papel de fantasia e com um lacinho colorido, levam o seu tempo a desenvolver-se, a aprimorar-se, a ficarem práticas e acessíveis, milhares e milhares de anos talvez, e, embora muitos ingénuos, vaidosos ou egocêntricos acreditem que as palavras que colocam no papel, simples símbolos a traduzir ideias de sempre, são da sua exclusiva autoria – também este é o caso da autora destes escritos, caro leitor, pois embora consciente da dolorosa evidência da sua insignificância, ela apraz-se alimentar o ego com ilusões megalómanas -, mas, dizíamos, esta empreitada já tem um nome e vai chamar-se Bíblia K3.11 – Uma visão do Livro sem backdoor.

O mundo é o que é. O facto de o considerarmos bonito ou feio, bom ou mau, agradável ou desagradável depende simplesmente do ponto de vista dos seres humanos, que, quando lançam o seu olhar crítico a qualquer coisa ou assunto tomam como padrão, salvo raras exceções se é que as há, o seu umbigo. E a partir deste centro tão puro e espiritual para uns, mas fonte de loucos devaneios e apetites inconfessáveis para outros, os homens e as mulheres, únicos seres inteligentes e irresponsáveis que habitam a Terra, tecem sobre esta os mais diversos juízos, cada um, ou cada grupo, assumindo o seu papel favorito de herói defensor ou de carrasco, embora os da última espécie não gostem de aparecer em cena. Mas qualquer que seja a opinião que a humanidade tenha do mundo, ele está-se completamente borrifando para ela, tal como também não tem nenhuma opinião acerca daqueles que o usam e abusam, nem dos que pegam em espadas de papel para o defender. A Terra não quer saber da humanidade, nem das suas ações, reações, delírios, contradições ou divagações, para nada!

Quando participamos na campanha de limpeza dos jardins do nosso bairro é muito bom, é uma tarefa honrosa que nos faz sentir úteis e orgulhosos dos nossos valores, mas continuamos a deixar que nos vendam alimentos, detergentes, produtos de higiene, enfim, quase tudo, em embalagens e recipientes de plástico ou papel. Quando protestamos contra as indústrias que emitem CO₂ para atmosfera, ou assinamos petições para que as fábricas não deitem o seu lixo nos rios e ribeiras, sentimos uma enorme satisfação por termos contribuído para um mundo melhor, mais saudável e ecológico, mas continuamos a ter um carro à porta e a usá-lo indiscriminadamente, sem culpa, quantas vezes para ir comprar cigarros ao fundo da rua, assim como não nos preocupamos com o dióxido de carbono que é lançado na atmosfera pelas incineradoras, quando queimam o nosso meio quilo de lixo diário. Ficamos muito chocados quando seres humanos atentam contra a sua vida e contra a vida dos outros em nome de Alá, ou de Deus ou de Shiva, ou de um ditador, mas continuamos a adorar deuses, a seguir os dogmas religiosos, e a compactuar com ditadores. São assim os único seres inteligentes que vivem na Terra, consideram que o mundo onde vivem é uma espécie de propriedade coletiva, onde cada um se sente no direito de não ficar atrás do outro no que respeita ao usufruto, e enquanto uns poucos têm atitudes por demais aberrantes e cruéis, a esmagadora maioria colabora ativa e freneticamente com a passividade e ignorância.

À Terra, pouco importa o que a humanidade faz com o lixo tóxico, ou quantas baleias são mortas por ano. A Terra não se vai preocupar com a extinção da camada de ozono. A Terra está-se nas tintas para o dia em que não houver martas, nem finas senhoras para usarem as suas peles ao pescoço. Para a Terra tudo o que a humanidade faz é indiferente. A Terra continuará, amanhã, daqui a trinta mil anos ou daqui a um bilião de anos, impassível e fiel aos seus trajetos e rotação. Assim são os planetas. Assim é a humanidade.

Por hoje é tudo caros leitores, façam a vossa avaliação, protestem, blasfemem e sejam felizes. Até ao próximo artigo!

 
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