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Fotos_assustadoras_38[2]A omnipresença ou o dom da ubiquidade são conceitos que me aterrorizam. Não consigo pensar neles com naturalidade e leveza; sempre que tento encarar ou sentir essa palavra como uma possibilidade positiva, por alguma lacuna do pensamento se escapa uma visão da sociedade de 1984, imaginada por George Orwell em 1949.

Não me é fácil imaginar Deus ou Algo ou uma Entidade, que possa estar em todos os lugares, em todas as dimensões, em todos os universos, em todos os tempos, simultaneamente. Mas o Deus dos cristãos, aquele Deus que ainda não se reformou, é assim, consegue vigiar, controlar, examinar, inspecionar toda a humanidade, a Terra, o sistema solar, o universo, todos os universos que não conhecemos em todos os tempos que nos escapam. Algo, ou uma Entidade, ou Deus, consciente e com esse poder imenso que é o da ubiquidade, poder esse que me deixa agoniada-enjoada-aterrada, só o posso considerar, nos padrões humanos que são os que conheço, um sociopata, pois com esse poder, Deus poderia fazer tanta coisa pela humanidade, poderia ajudar de inúmeras maneiras, mas não o faz. Limita-se a ser um espetador indiferente.

Dirão alguns crentes que Deus ou Algo ou uma Entidade divina não pode interferir no mundo dos mortais nem interage com eles, e eu pergunto, porque é que, então, há tantos mortais que juram que por ele já foram tocados, através de milagres ou outras manifestações extraordinárias? Ora se Deus faz milagres ou se manifesta extraordinariamente a algumas pessoas está a interferir; neste caso, afinal, sempre pode interferir e isso torna-o, para além de sociopata, um cínico que não respeita nem as suas próprias regras.

Às vezes o caminho mais simples é o mais certo, como se costuma dizer, principalmente se se trata de um conceito ou ideia. Se no meu raciocínio não encontro nada de bom na omnipresença divina e os cristãos dizem que Deus é bom, é amor, então, talvez esse Deus seja produto da imaginação, necessidades e angústias humanas, daí a omnipresença divina não fazer qualquer sentido, embora seja necessária para a construção da ideia de Deus. Deus omnipresente cumpre na perfeição a ideia de sentinela, de vigilante permanente que alerta para o mal, embora não o impeça.

  • Deus não pode estar em toda a parte simultaneamente, porque os homens também não.
  • Deus não acaba com todas as doenças em toda a parte, porque os homens ainda não conseguiram inventar tecnologia e medicamentos para curar todas as doenças.
  • Deus não faz milagres porque os homens também não.
  • Deus não acaba com a fome em cada centímetro quadrado da terra, porque os homens também não.
  • Deus e os santos fazem alguns milagres, porque os homens dizem que são milagres, e os homens podem ter alucinações, ou desejos de notoriedade, ou serem uns refinados mentirosos, ou simplesmente terem uma clara noção da envolvente político-social e encomendar um milagre.
  • O Deus dos Estados Unidos só tem uma vaga ideia do que é a fome em África, porque os crentes dos Estados Unidos nunca foram a África ver a fome de perto e nem têm a menor vontade de acabar com ela.
  • O Deus dos portugueses leva as mãos à cabeça e diz, oh, meu eu!, sempre que morrem soldados e civis numa guerra sem sentido, mas fica-se pela oca manifestação de conversa de café, porque os crentes portugueses não fazem a mínima ideia do que é estar no meio de uma guerra (salvo alguns veteranos da guerra do ultramar), nem lhes passa pela cabeça a mais pálida ideia de ir lá ajudar.

A omnipresença divina é igual à omnipresença humana.

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Por hoje é tudo caros leitores, façam a vossa avaliação, protestem, blasfemem e sejam felizes. Até ao próximo artigo!

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